Google virou referência ao questionar modelos tradicionais, diz gerente de RH

Há algo a mais, por trás do mobiliário colorido e das regalias que se vêem nos escritórios do Google pelo mundo. As peças e a flexibilidade de horário e modo de operação estão alinhadas com um modelo que desafia os padrões de recursos humanos. Em função dessa filosofia de trabalho, o Google foi apontado várias vezes, em vários locais do mundo, como a melhor empresa para trabalhar. “Viramos referência em RH porque não temos receio de questionar modelos tradicionais”, diz, em entrevista, Julia Crosman, gerente de RH para Engenharia do escritório de Belo Horizonte.

Ela participou do comitê de Gestão de Pessoas da Amcham – Belo Horizonte. Julia abordou os princípios, a cultura e as práticas de RH do Google. “Meu objetivo é mostrar como nossa identidade influencia a maneira como pensamos gestão de pessoas no Google”, diz.

Segundo Julia, o modelo flexível da empresa funciona porque há clareza de valores, objetivos e metas. “É importante permitir que os funcionários tenham iniciativa e possam definir como irão atingir seus objetivos”, comenta.

A seguir, confira a entrevista de Julia Crosman.


Por que o Google virou referência em RH?

O Google não é uma empresa convencional e nem pretende se portar como uma. Acredito que viramos referência em Recursos Humanos, pois não temos receio de questionar os modelos tradicionais de gestão e de pensar o que pode ser feito para atender nossos funcionários da melhor maneira possível, além de apoiar a estratégia do nosso negócio. Investimos em uma equipe de RH com experiências diversas e com profissionais altamente qualificados. Em relação às práticas de RH, destacaria as políticas flexíveis da empresa, que nos permitem realizar um trabalho com novos modelos e que abrem espaço para a inovação.

A empresa tem algum tipo de indicador que “mede” a influência da flexibilidade de tempo e das regalias como sala de descanso, jogos, comida e bebidas sobre a produtividade?

Somos uma empresa de rápido crescimento, inserida em um cenário bastante competitivo e em plena transformação. Procuramos manter o foco em inovação e, acima de tudo, no cliente e nos consumidores. Somos uma empresa muito dinâmica, sem organogramas formais, poucos níveis hierárquicos, flexibilidade de horários e comunicação muito franca. Para esse tipo de organização funcionar, é necessário que os valores, os objetivos e as metas estejam bem claros. Igualmente importante é permitir que os funcionários tenham iniciativa e possam definir como irão atingir seus objetivos. Para isso, o livre acesso às informações é vital. Mesmo com nossas áreas de convivência com TV, videogames, jogos e comida, todo mundo aqui tem seus objetivos bem definidos, sabe o que precisa ser feito. Se as metas forem atingidas, o funcionário pode trabalhar do jeito que ele se sinta mais confortável.

Vocês já devem ter respondido várias vezes sobre o perfil de um googler. Hoje, após várias entrevistas e análises sobre o RH, qual a resposta que você dá?

Não temos um perfil específico. Procuramos profissionais com forte formação acadêmica, que tenham um excelente histórico de dedicação ao seu desenvolvimento acadêmico e profissional e que tenham interesse genuíno por fazer parte de uma equipe. Empreendedorismo e capacidade cognitiva são algumas características que procuramos identificar nos candidatos a uma vaga no Google, que também devem gostar de ser constantemente desafiados por atividades e projetos complexos. Por último, a adequação à cultura da empresa é fator primordial de sucesso do processo seletivo.

Você acredita que esse modelo pode ser replicado em outras companhias? Que tipo de trabalho pode se inspirar no RH da Google?

O modelo de Recursos Humanos do Google é baseado na nossa cultura, estratégia e no tipo de indústria da qual fazemos parte. Isso significa que o que funciona para o Google não necessariamente funcionaria em uma empresa de outro segmento ou indústria. Mesmo assim, acho importante que profissionais da área de Recursos Humanos questionem mais os modelos tradicionais de Gestão de Pessoas e pensem o que pode ser feito de diferente em suas empresas para valorizar o funcionário e trazer flexibilidade ao ambiente de trabalho.

Como um gestor de RH lida, no dia a dia, com os funcionários? Como é a abordagem, por exemplo, quando alguém está fora do que a empresa propõe? Aliás, o que é estar fora da proposta, no Google?

No Google, o RH está muito próximo dos funcionários. Temos uma política de portas abertas, de comunicação direta. Eu, por exemplo, nem tenho sala. Sento no escritório junto de todo mundo e, caso surja algum tema confidencial para tratar, vamos para uma sala de reunião. Isso facilita a interação e aproxima a área de RH dos funcionários. O Google é uma empresa focada em performance e entrega. Caso um funcionário apresente dificuldades, fazemos um acompanhamento junto com o gerente e desenhamos um plano para que o funcionário possa trabalhar seus pontos fracos e se desenvolver.

Que tendências o RH do Google vai seguir, daqui para a frente? O que virá de novidade nessa área?

Uma tendência que o Google vem liderando é a criação de uma nova área dentro do Departamento de RH, que se chama People Analytics. O objetivo deste grupo de profissionais é ajudar o negócio na tomada de decisão do ponto de vista das pessoas, através de estudos e análises de dados. Um dos nossos diretores da área estará no CONARH (Congresso Nacional sobre Gestão de Pessoas) deste ano apresentando alguns casos.